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Aquela sensação de «estar debaixo de água» num ou em ambos os ouvidos é um dos motivos mais comuns pelos quais as pessoas marcam uma consulta. Por vezes, essa sensação vem acompanhada de audição abafada, pressão, estalidos, sensação de plenitude, zumbido ou aqueles momentos em que a própria voz soa mais alta do que deveria. O mais frustrante é que essa sensação pode ter causas muito diferentes, e muitos dos remédios caseiros óbvios só ajudam numa dessas situações. Se o problema for cera, o passo seguinte é muito diferente do que se faria em caso de pressão no ouvido médio ou de uma infeção. É por isso que dois exames simples são tão úteis: a otoscopia por vídeo e a timpanometria. Juntos, eles esclarecem rapidamente o que se passa realmente, para que possa deixar de adivinhar e começar a tratar o problema certo.
Por que razão «bloqueado» não é um diagnóstico
A sensação de ouvido entupido é um sintoma, não uma explicação. A sensação pode ser causada por problemas no canal auditivo, no tímpano ou no espaço do ouvido médio, atrás deste. Também pode ser influenciada pelo que se passa no nariz e na garganta, porque a trompa de Eustáquio liga o ouvido médio à parte posterior do nariz e ajuda a equalizar a pressão. Quando a trompa de Eustáquio não abre corretamente, as pessoas descrevem frequentemente os ouvidos como se estivessem cheios, entorpecidos ou com uma sensação de algodão, acompanhados de estalidos ou crepitações. Por outro lado, a acumulação de cera pode criar a mesma sensação de abafamento, por vezes acompanhada de zumbido ou tonturas. As otites também podem incluir sensação de plenitude e alterações auditivas temporárias, frequentemente acompanhadas de dor ou febre. O objetivo não é memorizar todas as causas. O objetivo é avaliar o que se passa no ouvido e no ouvido médio, para que o próximo passo se torne óbvio.
Teste 1: Otoscopia por vídeo, uma visão nítida do interior do ouvido
A otoscopia é o método padrão utilizado pelos médicos para examinar o canal auditivo e o tímpano. A otoscopia por vídeo cumpre a mesma função, mas com uma câmara e um ecrã que permitem uma visão mais nítida e ampliada, facilitando a explicação do que se observa. É um procedimento rápido e, normalmente, confortável. Ajuda a responder às primeiras questões cruciais. O canal auditivo está desobstruído ou bloqueado por cera? A pele do canal está inflamada, seca ou irritada? Existem resíduos, secreções ou sinais de infeção? O tímpano parece saudável, retraído, protuberante, perfurado ou bloqueado à vista?
Isto é importante porque muitas queixas de «ouvido entupido» não se devem, de todo, a problemas no ouvido médio. A acumulação de cera é comum e pode causar perda auditiva, sensação de entupimento, zumbido, dor de ouvidos ou tonturas. Se o canal estiver obstruído com cera, os truques para equalizar a pressão e os descongestionantes não resolvem o problema, porque o som é atenuado antes mesmo de chegar ao tímpano. A otoscopia por vídeo também pode revelar se o canal auditivo está dorido ou inflamado, o que altera o que é seguro fazer a seguir. Se o tímpano não for visível, isso também constitui um diagnóstico, pois significa que não devemos fazer suposições sobre o que se passa por trás dele.
Uma boa otoscopia por vídeo também nos dá tranquilidade quando tudo parece estar bem. Se o canal estiver desobstruído, o tímpano parecer normal e não houver sinais de infeção, podemos avançar com confiança para a fase seguinte do sistema.
Teste 2: Timpanometria, uma verificação rápida da pressão e do movimento do ouvido médio
Enquanto a otoscopia por vídeo nos mostra o aspeto do canal auditivo e do tímpano, a timpanometria indica-nos como está a funcionar o sistema do ouvido médio. A timpanometria é um exame que mede o movimento do tímpano em resposta a pequenas variações na pressão atmosférica e a um tom sonoro. Ajuda a avaliar o funcionamento do ouvido médio, incluindo a eventual presença de líquido atrás do tímpano ou um desequilíbrio de pressão compatível com uma disfunção da trompa de Eustáquio.
A experiência é simples. Uma sonda macia sela o canal auditivo por breves instantes, sente-se uma ligeira alteração de pressão e ouve-se um tom. O teste demora apenas alguns segundos. O resultado é um timpanograma, uma curva que reflete a mobilidade do tímpano e do sistema do ouvido médio e que pode fornecer informações quantitativas sobre o líquido no ouvido médio, a mobilidade e o volume do canal auditivo. Os médicos interpretam-no em conjunto com os sintomas e o resultado da otoscopia, porque o resultado de um teste é mais útil quando corresponde à história clínica e aos achados físicos.
Na prática, a timpanometria é uma das formas mais rápidas de distinguir entre um problema no canal auditivo e um problema de pressão ou de líquido atrás do tímpano. Se sentir o ouvido entupido, mas o canal estiver desobstruído na otoscopia, a timpanometria costuma explicar por que razão essa sensação persiste.
Juntando os dois testes: os padrões mais comuns
A otoscopia por vídeo e a timpanometria funcionam melhor em conjunto. Eis como, muitas vezes, ajudam a esclarecer a causa, sem transformar a consulta numa aula de medicina complicada.
Se o canal estiver obstruído por cera, a otoscopia por vídeo permite visualizá-lo diretamente. A timpanometria pode ser difícil de interpretar se a sonda não conseguir vedar adequadamente ou se o canal estiver obstruído. Nesse caso, a remoção da cera é a prioridade. Assim que o canal estiver desobstruído, os sintomas desaparecem frequentemente de forma rápida, podendo a audição ser reavaliada, se necessário.
Se o canal estiver desobstruído, mas o tímpano parecer retraído ou puxado para dentro, e a timpanometria revelar pressão negativa no ouvido médio, torna-se mais provável que se trate de uma disfunção da trompa de Eustáquio. Muitas pessoas descrevem isto como «ouvidos que não descarregam», alterações de pressão durante voos, estalidos, audição abafada ou uma sensação de algodão nos ouvidos. Este padrão é comum após constipações e em casos de inflamação nasal. Também pode surgir em casos de alergias, problemas nos seios nasais, refluxo e em fumadores. O tratamento centra-se geralmente no nariz e na trompa de Eustáquio, em vez de no próprio canal auditivo.
Se o canal estiver desobstruído, mas o tímpano apresentar um aspeto opaco ou menos móvel, e a timpanometria sugerir a presença de líquido atrás do tímpano, é provável que exista um derrame no ouvido médio. Nos adultos, isto pode ocorrer após infeções ou devido a uma disfunção prolongada da trompa de Eustáquio. Tende a causar uma audição abafada e uma sensação de plenitude. O passo seguinte depende do contexto, da duração e do facto de os sintomas serem unilaterais ou estarem acompanhados de dor, febre ou desconforto significativo.
Se o tímpano parecer inflamado ou protuberante e o quadro clínico sugerir uma infeção, o plano muda novamente. As infeções nos ouvidos podem incluir dor de ouvidos, febre, secreção, diminuição da audição e uma sensação de pressão ou de plenitude. Nessas situações, o tratamento não consiste em «desobstruir» o ouvido mecanicamente. Trata-se de tratar a inflamação e a infeção de forma adequada, mantendo-se atento a sinais de alerta.
O que não se deve fazer quando se sente o ouvido entupido
A sensação de bloqueio leva as pessoas a quererem resolver o problema imediatamente, o que é compreensível, mas algumas medidas comuns podem acabar por sair pela culatra.
Evite introduzir objetos no canal auditivo. Mesmo os cotonetes podem empurrar a cera para mais fundo e irritar a pele do canal. Evite o uso repetido de sprays nasais descongestionantes como solução geral para os ouvidos entupidos. Podem ajudar a aliviar a congestão nasal a curto prazo, mas não removem a cera e não constituem uma estratégia a longo prazo para problemas de pressão. Evite utilizar gotas para os ouvidos aleatoriamente se não souber o que se passa no canal e no tímpano. Algumas gotas não são adequadas se a pele do canal estiver inflamada ou se o tímpano estiver perfurado. O caminho mais seguro é simples: veja o que está lá, avalie o que se passa por trás e, em seguida, escolha o próximo passo.
Quando marcar uma consulta e quando procurar atendimento imediato
Marque uma consulta se a sensação de ouvido entupido durar mais do que alguns dias, se voltar a ocorrer ou se for acompanhada de uma audição abafada persistente. Também vale a pena marcar uma consulta se um dos ouvidos parecer sempre diferente do outro, pois os sintomas unilaterais merecem uma avaliação cuidadosa.
Procure assistência médica imediata se tiver dor intensa no ouvido, febre alta, secreção do ouvido, perda súbita de audição, tonturas intensas ou vertigens com sensação de giro, ou inchaço à volta do ouvido. Estas não são situações que se devam tratar sozinho.
Se os seus sintomas surgirem após uma constipação e se manifestarem como uma sensação de pressão e estalidos, uma avaliação continua a ser útil, pois permite confirmar se o ouvido médio está sob pressão, se existe líquido e se o canal auditivo e o tímpano parecem saudáveis. Essa clareza garante que o seu plano de tratamento seja sensato e evita semanas de tentativa e erro.
Um ouvido entupido pode parecer um problema menor até começar a afetar o sono, o trabalho, as viagens e a vida social. A boa notícia é que a causa costuma ser simples, assim que se deixa de adivinhar. A otoscopia por vídeo mostra o que se passa no canal auditivo e no tímpano. A timpanometria verifica a pressão e o movimento por trás do tímpano. Em conjunto, estas duas técnicas permitem geralmente determinar se o próximo passo é a remoção de cera, o controlo da pressão no ouvido médio, o tratamento de uma infeção ou o encaminhamento para uma avaliação mais aprofundada. Se sentir o ouvido como se estivesse debaixo de água, uma avaliação tranquila com estes dois exames pode transformar um sintoma vago num plano de ação claro.
Referências
- https://www.nhs.uk/conditions/earwax-build-up/
- https://www.nhs.uk/conditions/ear-infections/
-
Eustachian tube dysfunction (blocked ears)
- https://www.chelwest.nhs.uk/your-visit/patient-leaflets/ent-audiology/eustachian-tube-dysfunction
- https://my.clevelandclinic.org/health/diagnostics/24222-tympanometry
- https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2004/1101/p1713.html
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK556090/
